TAGAWA KUN
Morte no teatro

A princesa trancafiada na última torre e toda a merda de um final banalizado, foi contado. O auditório aplaudiu e de miúdo, na fileira esquerda, ao lado do extintor de incêndio, estava a se perguntar por devaneio, em silêncio - que merda de história é essa? - mas ninguém podia ouvir o pequenino Eça a se descontrolar com, como diziam àquela época, o grand finale da peça.

- Vá a merda - gritou Deus. Espantados, o espetáculo hipnotizado com a sonoridade vinda do escuro breu, por de traz do vermelho da cortina apareceu, Caio Fernando Abreu. Ataque cardíaco. Morreu.

Saindo pela tangente

A diferença entre mim e você, é que levo com seriedade a vivacidade do ser, mesmo que passageiro, sejam eles bons ou ruins. O bom, mesmo tendo a compreensão de que nossos valores não se equalizam, dedico a mim a paciência e o carisma, na esperança de uma comunicação harmoniosa e límpida. Sei que muitas vezes erro, porém por mais verdadeiras que sejam minhas palavras chulas exaladas e meu sujo ato esbanjado, a essência do meu podre, da obscuridade vivida, já não são tão fáceis esquecidas por você e eu acordo. Lentamente me apoio, a alma se descurva de tanta vontade em demasia para minha recuperação mental que, você nesse meio tempo, opaco, não conseguindo sintonizar a minha mudança gradativa, por fim, me julga um tanto hipócrita de sua visão estérea que um dia me viu tropeçar. Finco a minha honra e meu caráter em território enlameado, dentre batalhas de egos inseguros que atacam imbecilmente na tentativa de se prevalecer. Por talvez cansaço, por talvez preguiça, me pergunto a razão de minha bandeira ainda hasteada, participante dum confronto inglório e desonesto. Silenciosamente, me desloco a procura de uma terra germinante, num outro mundo, com outra gente e de outro modo, a me levar de volta à seriedade do que não foi, até então, ainda esquecida.  

cinzeiro

acho estupido, acho fraco necessitar dormir pelo meu corpo nao aguentar fisgadas de choques na coluna, alem da minha hiperatividade e ansia de se nao dormir, procurarei outra maneira que eu possa me sentir descansando ao ouvir o vento que suspira retalhando o ar e que por alguma magia eu possa controlar a velocidade de um acontecimento tao minusculo particular numa tremenda satisfacao, mas nao. acordei com esse telefonema, acordei do sonho de uma semana a qual me sentia o extraterrestre do mundo em que as pessoas pulavam predios e faziam piruetas, acordei, acordei de um sonho e sem perceber entrando noutro e dele me sentirei a acordar e acordar e quanto mais suplico a minha soneca, mais bitucas de cigarros há de aparecer no meu cinzeiro. outubro de 2010

Offline

O que fiz para merecer isso? - dizia a mãe envolta nos cobertores, na companhia de seu marido, estende seu braço sob a cômoda arrastando para sua mão o copo de água que respinga no azulejo frio e o toma - não criei um filho para ficar na madrugada feito vagabundo a conversar com estranhos num mundo virtual que todos, que todos são uma especiaria de gentinha que não tem mais o que fazer - e nisso inspirou o ar como se pudesse selar toda a angústia por não conseguir entender a sensação de seu filho estar fascinado por pessoas da qual não conseguia sentir a realidade dos cinco sentidos. 

Eduardo, estudante de matemática com o QI elevado, já diagnosticado desde sua infância, estava prestes a abominar a internet no propósito de se relacionar com pessoas, sejam elas reais ou virtuais, porém não imaginava encontrar, nessa noite em que se podia ver leves gotejar escorrendo pela janela, uma figura que não se podia dizer apaixonante, senão arrebatador.

Deixou-se levar pela emoção, numa turbulenta sensação de bem estar e relaxamento na qual não se sentia tão bem há meses, talvez há anos. Digitava com violência num intenso desejo por ter encontrado respostas, respostas não tão evidentes para conseguir expressa-las, porém verdades de sua alma de se sentir confortável o bastante para exibir a sua imagem em movimento para, até então, a sedutora desconhecida figura na qual se comunicava.

Estava bêbado e incoerente, não conseguia entender o anseio de sua despedida, porém o torturava se sentindo rejeitado. Dizia o quanto estava se sentindo bem e o quanto estava perdido até ter encontrado esta oportunidade de poder amar. Ambos se sentiam, em sincronia, a emoção e de cada gesto e de cada olhar, de cada movimento do pescoço, cada gesto minucioso de absorção e expressão era facilmente interpretado, vicioso.  

Os pais já não aguentando o escândalo sonoro do teclado, no qual justificava ser um desrespeito dentre família, acordaram, se levantaram. Se pode ouvir o ranger, um uivo, de móvel no azulejo e a mensagem sutil que os lobos acordaram. O filho nada pode fazer.

Posso te ligar? - consciente da situação, objetivamente negou. Alma chorando, revolto, tendo além da paciência de ouvir-lhes falar, seus pais, sobre dormir e acordar cedo, também a paciência do futuro questionável encontro do que lhe proporcionou o amor, esse tão perto, tão longe, tão incógnito. Desconectou.

você não

ele podia te amar, te acolher em seu maior momento gélido de fraqueza, gargalhar com tua filosofia individualista sutilmente pura e jovial, transformando-o num apaixonante observador de suas feições. 

você dizia tê-lo amado, acolhido em seu maior momento de ilusão, gargalhado com tua filosofia liberalista sutilmente negra e madura, transformando-te num apaixonante ouvinte de suas palavras.

ele podia,

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jeans rasgado, apertado, desfiado, sujo. ele adora. o modo como a noite desenrola, da boca como o zíper se enrosca. bossa nova. da boa, se amontoa ao primeiro ato, se lambuza e usa a pessoa à toa. celibato, rumo ao vestiário com o primeiro otário. cheiro de ralo, vômito no vaso, pensamento gasto, raso. no amasso, arrastado num movimento de seu antibraço ao aço, corpo suado, lambida no suvaco, carícia felina de um macho atormentado e ele diz pausadamente amedrontado - estou desinteressado - convite ao viciado que pintou de sangue o assoalho, caolho, spray de alho e o olho do coitado já todo perfurado, disparou em fuga como rato o desgraçado. já sentado, amargurado, uma lenta cuspida saltou na divisória ao lado, à espera de um cavalo alado, rezou calado - preciso de mais álcool.          

o príncipe do chapéu azul turquesa

o cachicol quadriculado e a manta que um dia foi de minha avó. deixarei de ser covarde, num caminho sem destino entre os móveis não coloniais da sala que nunca foi de jantar, escutando a canção vinda de um ambiente que um dia acreditei ser meu refúgio, de um dormitório amadeirado que teimo em dizer ser o meu quarto. danço encarnado, movimentos ritualísticos de encontro aos deuses que, ao se curvarem em desculpas, terei assim que perdoar a falsa vida que me deram. blasfêmia. não ei de justificar a imaturidade de um príncipe, pois, mesmo imatura, é superior de qualquer verdade mecânica, afronte da sabedoria deslexa naturalmente pura que tomo deste cálice. copo de requeijão. bloqueio. mulher rainha interrompe, mulher materna retorna desmoronando o castelo a qual estava construindo com tanto zelo e o trono se quebra e a música para. resta de aresta a pilha de louças a ser lavada, o juros de 8% na conta bancária, um garoto de verdades não tão sábias, imperfeito.

mandinga da sorte

que de tanto amor enloquece. a mente fantasia. a posse. o desejo de poder por não poder. fragilidade. menina adulta, menina flor. irradia luz no breu, sangrando. espinho minuncioso acaricía, pois. maldita planta, enterro. esquecida. sem direito a vida, minha vida. do jardim um campo, horizonte. morte. da luz a morte. do meu sangue venha a respectiva sorte.

na frente está o alvo

que se arrisca pela linha / não é tão diferente do que eu já fui um dia / se vai ficar / se vai passar / não sei / e num piscar de olhos lembro o tanto que falei / deixei / calei / e até me importei / mas não têm nada / eu tava mesmo errado / cada um em seu casulo / em sua direção / vendo de camarote a novela da vida alheia / sugerindo soluções / discutindo relações / bem certos que a verdade cabe na palma da mão / mas isso não é uma questão de opinião / isso é só uma questao de opinião.

4 anos atrás. 4 anos depois.