O que fiz para merecer isso? - dizia a mãe envolta nos cobertores, na companhia de seu marido, estende seu braço sob a cômoda arrastando para sua mão o copo de água que respinga no azulejo frio e o toma - não criei um filho para ficar na madrugada feito vagabundo a conversar com estranhos num mundo virtual que todos, que todos são uma especiaria de gentinha que não tem mais o que fazer - e nisso inspirou o ar como se pudesse selar toda a angústia por não conseguir entender a sensação de seu filho estar fascinado por pessoas da qual não conseguia sentir a realidade dos cinco sentidos.
Eduardo, estudante de matemática com o QI elevado, já diagnosticado desde sua infância, estava prestes a abominar a internet no propósito de se relacionar com pessoas, sejam elas reais ou virtuais, porém não imaginava encontrar, nessa noite em que se podia ver leves gotejar escorrendo pela janela, uma figura que não se podia dizer apaixonante, senão arrebatador.
Deixou-se levar pela emoção, numa turbulenta sensação de bem estar e relaxamento na qual não se sentia tão bem há meses, talvez há anos. Digitava com violência num intenso desejo por ter encontrado respostas, respostas não tão evidentes para conseguir expressa-las, porém verdades de sua alma de se sentir confortável o bastante para exibir a sua imagem em movimento para, até então, a sedutora desconhecida figura na qual se comunicava.
Estava bêbado e incoerente, não conseguia entender o anseio de sua despedida, porém o torturava se sentindo rejeitado. Dizia o quanto estava se sentindo bem e o quanto estava perdido até ter encontrado esta oportunidade de poder amar. Ambos se sentiam, em sincronia, a emoção e de cada gesto e de cada olhar, de cada movimento do pescoço, cada gesto minucioso de absorção e expressão era facilmente interpretado, vicioso.
Os pais já não aguentando o escândalo sonoro do teclado, no qual justificava ser um desrespeito dentre família, acordaram, se levantaram. Se pode ouvir o ranger, um uivo, de móvel no azulejo e a mensagem sutil que os lobos acordaram. O filho nada pode fazer.
Posso te ligar? - consciente da situação, objetivamente negou. Alma chorando, revolto, tendo além da paciência de ouvir-lhes falar, seus pais, sobre dormir e acordar cedo, também a paciência do futuro questionável encontro do que lhe proporcionou o amor, esse tão perto, tão longe, tão incógnito. Desconectou.